Colégio Novo Mundo
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Lendo Willian Shakespeare

 
 

 ROMEU E JULIETA

            As duas famílias mais ricas e importantes da cidade deVerona, na antiga Itália, eram os Capuletos e os Montagues.

            Uma velha inimizade dividia as duas famílias,transmitindo-se de pais a filhos. Nem os criados dos Capuletos podiamencontrar-se, mesmo por acaso, com os criados dos Montagues; sempre ocor·­riamdiscussões ferozes e derramamento de sangue. Esses violentos encontrosperturbavam a tranqüili­dade de Verona.

            Certa vez o velho Capuleto deu um grande baile, para oqual convidou muitas senhoras da sociedade e fidalgos importantes.

            Rosalina, amada por um jovem da família Monta­gue,chamado Romeu, estava presente à festa dos Ca­puletos. Persuadido por seu amigoBenvolio, Romeu teve a ousadia de comparecer de máscara ao grande baile, emboratal atitude fosse muito arriscada para um Montague. A intenção de Benvolio eracurar a pai­xão de Romeu, dando-lhe oportunidade de ver ou­tras jovens belas;pois a verdade é que Rosalina não retribuía o amor do rico e eleganteapaixonado.

            Assim, três amigos inseparáveis - Romeu, Ben­volio eMercucio - entraram mascarados na festa dos Capuletos. Foram muito bemrecebidos pelo do­no da casa, que lhes disse ter usado máscara nos bai­les desua mocidade. Garantiu ainda aos rapazes, em tom de brincadeira, que se asdamas não tivessem os pés cheios de calos dançariam com eles.

            Romeu sentiu-se logo vivamente impressionado pela belezaincomum duma jovem que dançava. Co­meçou a fazer exaltados elogios à moça: elaensinava as luzes a brilharem ... era uma pomba alvíssima a voar entre negroscorvos ...

            Enquanto fazia esses louvores, foi ouvido por Tebaldo,sobrinho do velho Capuleto, que o reconhe­ceu pela voz. Tebaldo, de gênioviolento, declarou que não podia admitir que um Montague fosse a uma festa desua família para zombar dos presentes. Teria matado o jovem Romeu, caso o velhoCapuleto não o impedisse. O anfitrião, em respeito aos convidados, não quis quea festa fosse perturbada. Além disso, Ro­meu, a seu ver, portava-se como umcavalheiro e era conhecido em Verona como perfeito gentil-homem. Tebaldo,contido na sua cólera, jurou que o Vil Mon­tague pagaria caro a petulância.

            Terminadas as danças, Romeu aproximou-se da jovem,tomando-a com toda a delicadeza pela mão. Disse-lhe que a respeitava como umobjeto sagrado. Ela respondia-lhe no mesmo tom delicado, quando foi chamada porsua mãe. Só então Romeu descobriu que a linda moça era Julieta, filha do velhoCapuleto, o grande inimigo dos Montagues. Apesar de pertur­bado por essadescoberta, continuou sentindo a força de seu amor.

            Igualmente inquieta sentiu-se a jovem, ao saber que o rapazcom quem estivera conversando era Romeu, um inimigo de sua família, pois tambémela se sentira atingida pelo mesmo sentimento de amor repentino e invencível. Overdadeiro amor - disse para si mesma - não reconhece inimizade nem rivalidadede família.

            À meia-noite, partiram Romeu e os companheiros.

            Mas o jovem apaixonado, livrando-se dos amigos, sal­tou omuro do pomar da casa de Julieta, sem ânimo de afastar-se do lugar em quedeixara o coração.

,           Sem que o visse, Julieta chegou à janela, como se fosse opróprio Sol - pensou Romeu -, que torna pálido e doentio o brilho da Lua. Elaapoiou a mão no rosto - e ele desejou ser a luva que calçava aque­la mão, paratocar-lhe a face.

            Julgando-se sozinha, Julieta suspirou profunda­mente:

            -Ai de mim!

            Extasiado, sem que ela o ouvisse, Romeu mur­murou:

            - Oh, fala mais uma vez, anjo de luz! Pois é co­mo umalado mensageiro do céu que te vejo!

            Sem poder imaginar que estava sendo ouvida, to­mada pelasúbita paixão, Julieta chamou o amado pe­lo nome, supondo-o bem longe:

            - Oh! Romeu, Romeu! Por que és Romeu? Rene­ga teu pai erepudia teu nome, por amor de mim. Ou jura então que me amas e deixarei de serCapuleto.

            Não podendo mais permanecer quieto, Romeu pediu-lhe emvoz bastante alta que o chamasse de Amor, ou qualquer outro nome, que eledeixaria de ser Romeu.

            Assustada ao ouvir voz estranha no jardim, Julie­ta nãoreconheceu imediatamente o jovem, protegido pela noite. Ao verificar de quem setratava, censurou Romeu por expor-se a tão grave perigo, pois, se algum dosseus parentes o encontrasse, mais um Montague se bateria com um Capuleto ealguma morte poderia ocorrer. Romeu exclamou:

            - Há mais perigo em teus olhos do que em vinte espadas!Prefiro ter a vida destruída pelo ódio de tua família a viver sem teu amor!

            - Como chegaste até aqui? Quem te mostrou o caminho?

            As faces de Julieta ficaram ruborizadas: ela se lem­bravaagora da involuntária declaração de amor que fizera a Romeu. Mas como voltaratrás? Impossível  era também proceder de acordocom as conveniên­cias, mantendo o namorado a distância.

            As damas discretas fingiam, aprincípio, repelir os pretendentes; mostravarn-se esquivas, simulando ti­midezou indiferença, pois as dificuldades aumentam o valor da conquista. No caso deJulieta, todos esses artifícios não mais se justificavam: Romeu ouvira-lhe daprópria boca a confissão de amor.

            Assim, com toda a franqueza, elaconfirmou o que já dissera, chamando-o de Belo Montague ... Pois o amor é capazde tornar doce um nome detestado. Pedia-lhe que não a julgasse uma leviana, masuma jovem traída pelo acaso. Pelo menos, levava sobre as outras a vantagem deser inteiramente sincera.

            Romeu começava a jurar, por todos ossantos do céu, que jamais este pensamento lhe passara de leve pela cabeça; masJulieta pediu-lhe que não o fizesse.

            O enlevo amoroso foi interrompidopela dama de companhia de Julieta que lhe falou, do fundo do apo­sento, queeram horas de dormir, pois o dia estava para nascer.

            Julieta disse ainda umas brevespalavras a Romeu: se a sua intenção era casar-se, que ambos marcassem a data nodia seguinte, através dum mensageiro; depois disso, ela o seguiria, obediente,até o fim do mundo.

            Apesar de várias vezes instada peladama de com­panhia, Julieta não tinha coragem de deixar a janela. Também Romeunão se mostrava disposto a partir, pois nada existe mais suave do que a voz daamada dentro da noite. Mas aproximava-se o clarão da ma­drugada, e os doisafinal se despediram, desejando um ao outro um doce repouso.

            Em vez de voltar a casa, Romeudirigiu-se a um mosteiro próximo à procura de Frei Lourenço. O frade já estavade pé. Quando Romeu lhe revelou seu amor por Julieta Capuleto, implorando aopadre que os casasse naquele mesmo dia, o santo homem ergueu os olhos e as mãospara o céu, assombrado com a súbita mudança dos sentimentos do rapaz, quesempre fizera do frade o confidente de sua pai­xão por Rosalina.

            Disse-lhe Romeu que dessa vez eradiferente: amava e era amado. Frei Lourenço, até certo ponto, aceitou-lhe as razões,imaginando que a união de Julieta e Romeu pudesse acabar afinal com a longadisputa entre as duas famílias. E, assim, consentiu em casá-los.

            Informada pelo mensageiro, Julietanão demo­rou a aparecer na cela de' Frei Lourenço, onde as mãos de ambos seuniram em sagrado matrimônio. O frade rezou para que a aliança pusesse fim à luta entre Capuletos e Montagues. Terminadaa cerimô­nia, Julieta voltou para casa, onde ficou a esperar, impaciente, oanoitecer, ocasião em que Romeu pro­metera encontrar-se com ela no pomar. Foiuma longa e sofrida espera.

            Nesse mesmo dia, os amigos de Romeu,Benvolio e Mercúcio, encontraram na rua um grupo de Capu­letos, chefiado peloviolento Tebaldo, o jovem que desejara desafiar Romeu na noite do baile.Tebaldo começou a insultar Mercúcio, e, este, que também ti­nha um temperamentoirascível, passou a responder­-lhe com aspereza. Já começavam a brigar, quandoo próprio Romeu surgiu no local. Contra ele voltou-se Tebaldo, atirando-lhe oinsulto de vilão. Romeu não desejava brigar com Tebaldo, primo de Julieta. Alémdisso, o nome Capuleto despertava-lhe agora mais to­lerância que ódio. Por essemotivo, tentou contornar  o problema. Mas Tebaldo, que odiava todos os Mon­taguescomo se fossem uma raça maldita, sacou a es­pada. Mercúcio, ignorando ocasamento do amigo, e vendo na boa vontade de Romeu um gesto de sub­missão aoinimigo, começou a provocar Tebaldo com palavras de desprezo. Ambos reiniciarama luta e Mer­cúcio caiu morto. Romeu precipitou-se sobre o primo de sua mulher,matando-o com certeira estocada.

            A notícia logo se espalhou por Verona, e uma multidão decuriosos compareceu ao local, inclusive o casal Capuleto e o casal Montague.Pouco depois chegava o príncipe que governava Verona, parente de Mercúcio, mortopor Tebaldo.

            Benvolio, testemunha da tragédia, foi intimado pe­lopríncipe a contar o que acontecera. A mulher do velho Capuleto, pesarosa pelamorte de Tebaldo e desejosa de vingança, pediu ao príncipe que se fizes­sejustiça ao assassino, sem dar atenção às palavras de Benvolio, amigo íntimo deRomeu. Não sabia que es­tava a pedir a condenação do próprio genro.

            Por sua vez, a mãe de Romeu intercedia pelo filho,dizendo que este nada fizera digno de castigo, pois Tebaldo seria condenado àmorte, diante da lei, por ter assassinado Mercúcio. Sem deixar-se comover pe­losapaixonados argumentos das duas mulheres, o príncipe examinou cuidadosamente odepoimento das testemunhas, sentenciando por fim: Romeu seria expulso deVerona.

            Triste notícia para Julieta! A princípio, ao saber o quese passara, proferiu palavras amargas e contradi­tórias contra Romeu: pombacruel... demônio angéli­co ... lobo manso ... Mas, vencida pela intensidade deseu amor, acabou transformando as lágrimas que der­ramava pela morte do primoem lágrimas de alegria  por saber que omarido estava vivo, quando poderia ter sido morto por Tebaldo. E, ao pensar queRomeu fora expulso de Verona, sentiu que era uma sentença mais terrível do quea morte de todos os primos.

            Depois do combate, Romeu escondeu-se na cela de FreiLourenço, onde veio a saber da sentença do prín­cipe, que lhe pareceu maisterrível que a morte. O céu estaria onde se encontrasse Julieta: tudo o maisseria o inferno. O bom frade tentou confortá-lo, mas, alucina­do, o rapazatirou-se ao chão num acesso de dor e de revolta, pedindo-lhe que lhepreparasse a sepultura.

            Uma mensagem de Julieta deu-lhe um pouco mais de ânimo. Ofrade se valeu da oportunidade para ten­tar chamá-Io à razão: por que mataraTebaldo, deveria matar-se também? E matar Julieta de dêsgosto? O ho­mem -disse-lhe Frei Lourenço - é um boneco de cera quando lhe falta a coragem. A leiaté fora benig­na para com ele, pois o príncipe não o sentenciara à morte, mas ao exílio. Julieta estava viva eera sua espo­sa. Ambos ainda poderiam conhecer a felicidade.

            Romeu repeliu com amargura as palavras do fra­de. Esteaconselhou o pobre rapaz a despedir-se de Julieta naquela noite e a partir parauma cidade pró­xima, onde ficaria até que ele, Frei Lourenço, pudes­se anunciara todos o casamento. A união, provavel­mente, reconciliaria as duas famílias.Depois disso, era bem possível que o príncipe o perdoasse, permi­tindo seuregresso a Verona.

            Aceitando afinal os sábios conselhos do frade, Ro­meudeixou o mosteiro para encontrar-se secreta­mente com Julieta.

            Foi uma noite de amor e de angústia.Pareceu-lhes que a madrugada tinha chegado antes da hora. Ao ouvir a cotovia,que canta pela manhã, Julieta quis convencer a si mesma de que era o rouxinol,que can­ta durante a noite. Chegara a hora da separação para os doisapaixonados.

            Despediram-se de coração pesado. Quando o viu em pé,imóvel no jardim, um triste pressentimento fez Julieta estremecer: veio-lhe aoespírito a imagem de um morto no fundo da sepultura.

            Era apenas o começo da tragédia dos dois apaixo­nados.Poucos dias depois da partida de Romeu, o ve­lho Capuleto arranjou casamentopara a filha. O jovem escolhido pelo pai, sem imaginar que a filha já estives­secasada, era o Conde Páris, galante fidalgo, digno pretendente à mão de Julieta e capaz de conquistá-Ia seela nunca houvesse conhecido Romeu.

            Julieta sentiu-se confusa ante o oferecimento. Ale­gouainda não estar preparada para o casamento, lembrou a morte recente de Tebaldo,apresentou uma série de objeções, só não contando ao pai o verdadei­roimpedimento. O velho Capuleto mostrou-se surdo a todos os argumentos,ordenando-lhe que se prepa­rasse, pois na quinta-feira seguinte seria celebradaa cerimônia. Atribuía a recusa da filha a uma timidez excessiva.

            Recorreu a jovem ao bom Frei Lourenço, amigo e fielconselheiro de todas as horas. Perguntou-lhe o fra­de se estava disposta aaceitar uma solução desespe­rada; respondeu-lhe Julieta que preferia ser enterradaviva a casar-se com Páris naquelas circunstâncias. Ordenou-lhe o padre quevoltasse para casa, fingindo alegria, consentisse no casamento, de acordo com odesejo do pai, e na noite seguinte, que seria a da véspe­ra do casamento,bebesse o conteúdo de um frasco que lhe entregou; tratava-se de um líquido quea tornaria aparentemente morta, conservando-a fria e imóvel, durante quarenta eoito horas; ninguém teria dúvidas sobre a sua morte e, na manhã seguinte, seriacondu­zida descoberta, sobre um estrado, segundo o costume da terra, para serenterrada no mausoléu da família. Se pudesse vencer seus temores - continuou ofrade ­e passar por essa terrível provação, acordaria depois das quarenta eoito horas, como se despertasse dum sonho. Mas, antes que ela acordasse, Romeu,avisado de tudo, viria durante a noite e a levaria consigo. Sem hesitar,Julieta declarou-se disposta a enfrentar a terrí­vel prova. Ao despedir-se,levou o frasco, prometendo seguir as instruções do frade.

            O velho Capuleto desejava celebrar as núpcias da filhacom a maior festa já realizada em Verona.

            Na noite de quarta-feira, Julieta bebeu a poçãomisteriosa. Por instantes receou que o frade lhe tives­se dado veneno, temendocensuras por havê-Ia casa­do com Romeu. Mas acabou convencida de suas boasintenções: ele sempre fora um santo homem. Teve medo, em seguida, de despertarantes que Romeu viesse buscá-Ia: ver-se-ia então num recinto cheio de ossadasfúnebres, e onde Tebaldo jazia ensangüenta­do. O terror poderia enlouquecê-Ia.Recordou as his­tórias de fantasmas que assombravam os próprios túmulos. Oamor, contudo, mais uma vez, livrou Julieta de seus temores_

            Na manhã seguinte, quando o jovem Páris, acom­panhado demúsicos, pretendeu despertar a noiva, encontrou um cadáver no quarto. Foi umgolpe trá­gico para as esperanças do jovem! E uma confusão horrível tomou contadaquele lar! O pobre noivo, in­conformado, não se cansava de chorar a noiva quea morte lhe arrancara. E as lamentações do velho pai eram ainda mais dolorosas.

            Antes que pudesse imaginar o que poderia ter acontecido,Julieta despertou. Vendo o frade a seu lado, lembrou-se do lugar em que estavae perguntou pelo marido. Ouvindo ruídos, o frade pediu-lhe que aban­donasse ofúnebre local, pois suas intenções haviam sido alteradas por um poder maisforte. Assustado pe­lo ruído que se aproximava, Frei Lourenço fugiu. Ao ver ofrasco nas mãos de Romeu, Julieta compreen­deu o que acontecera. Comovida,aproximou-se do amado e beijou-o nos lábios. Ouvindo passos, retirou o punhalque trazia consigo, ferindo-se mortalmente e caindo sobre o corpo daquele aquem amava.

            Um pajem do Conde Páris, que presenciara a dis­tância oduelo entre o amo e Romeu, dera o alarma. Os habitantes de Verona tinham vindopara as ruas, sem saber ao certo o que se passara no cemitério. O velhoMontague, o velho Capuleto e o príncipe também tinham deixado os seus leitos. Ofrade fora detido por alguns homens da guarda, ao sair do ce­mitério, todotrêmulo, e de maneira furtiva. E, diante da multidão reunida em torno domausoléu dos Ca­puletos, o príncipe intimou o frade a contar o que sa­bia sobreos trágicos acontecimentos.

            A narrativa do pajem completou as informações . de FreiLourenço. O príncipe, voltando-se para os ve­lhos fidalgos, censurou-Ihes oódio implacável, mos­trando o castigo que o céu enviara para puni-los por tãoantiga e impiedosa disputa.

            Os rivais concordaram em sepultar a "senhora"ini­mizade no jazigo dos filhos. O velho Capuleto pediu ao velho Montague quelhe desse a mão, chamando­lhe irmão, como se confirmasse a união das duasfamílias pelo casamento. O fidalgo Montague prome­teu, por sua vez, queergueria a Julieta uma estátua de ouro puro. O fidalgo Capuleto retribuiuafirmando que mandaria erguer outra estátua a Romeu. E assim os pobres velhos,já tarde demais, trocaram recípro­cas cortesias. Mas não foi inútil osacrifício dos jovens apaixonados; suas mortes estabeleceram firmemente assementes da paz e da concórdia entre as duas nobres famílias de Verona, e nosseus túmulos ficou sepultado um longo e sangrento passado de ódios eprovocações.

 


Professora Sandra Ferraz

8° ano A/B.

 

 

 

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