Colégio Novo Mundo
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A Fera Domada

A FERA DOMADA

 

            Batista era o homem mais rico da cidade de Pádua, na Itália. Uma de suas filhas, apesar de muito bonita, era famosa por seu temperamento agressivo e pelo número espantoso de insultos que saíam de sua boca. Todos a conheciam pelo nome de Catarina, a Fúria.

            Quem teria a coragem de casar-se com Catarina?

            Na cidade, ninguém acreditava que um tal doido apa­recesse. O risco não pagava a pena.

            Branca, a irmã mais moça de Catarina, era toda meiguice e boas maneiras. Mesmo assim, também ela estava arriscada a ficar solteira, pois o velho Ba­tista fazia questão de casar em primeiro lugar a filha mais Velha ..

            Foi quando chegou a Pádua um jovem, chama­do Petrúquio, decidido a achar uma noiva. Ao ou­vir falar do terrível temperamento de Catarina, o jovem mostrou-se interessado e declarou com visí­vel satisfação:

            - Ótimo! Vou transformar essa Fúria indomável na esposa mais dócil que já existiu.

            Embora a promessa fosse difícil de ser cumprida, Petrúquio tinha qualidades para tal: era muito obsti­nado; possuía um gênio expansivo e bem-humorado e parecia um ator de teatro, pela perfeição com que conseguia representar a mais assustadora das cóleras sem sequer estar com raiva.

            Era o que se chama hoje um cara-de-pau. Quan­do Petrúquio foi pedir licença a Batista para namorar a "meiga Catarina", teve a coragem de dizer ao velho que ouvira inúmeros elogios à "delicadeza" da moça.

            Embora estivesse louco para ver a filha casada, o pai achou melhor confessar logo que o rapaz estava um pouco enganado. E já se dispunha a fazê-lo quando entrou na sala o professor de música, todo assustado: Catarina acabara de quebrar-lhe a cabeça com o alaúde, um instrumento de corda muito usa­do antigamente.

            - Só porque tentei corrigir-lhe uma nota errada! Petrúquio sorriu, encantado:

            - Que moça decidida! Eu a admiro ainda mais depois desse gesto! Não posso perder muito tempo, Sr. Batista. Tenho muito a resolver, com relação às minhas propriedades, e gostaria de saber logo qual é o meu dote  caso eu consiga conquistar o amor de Catarina.

            Esses modos bruscos não combinavam bem com um rapaz apaixonado; mas, como queria ver a filha casada, Batista respondeu que o dote seria de vinte mil coroas. E o acordo foi prontamente realizado.

            Batista saiu da sala para comunicar à terrível filha o contrato de casamento. Petrúquio ficou a imaginar os galanteios que diria à noiva. "Vou procurar surpreendê-­Ia, assim que ela chegar. Se zombar de mim, digo-lhe que me faz lembrar um passarinho a cantar; se fizer ca­ra feia, vou compará-Ia às rosas do amanhecer; se não disser nada, declaro-lhe que nunca ouvi palavras tão bonitas, e, se me disser que não a aborreça, mostrar-­me-ei contentíssimo, como se tivesse me pedido para permanecer a seu lado uma selvagem. "

            Ao entrar o furacão, disse Petrúquio: - Bom-dia, Cata ...

            Demonstrando não ter gostado da intimidade, a jovem respondeu com desdém:

            - As pessoas que falam comigo me chamam de Catarina.

            - Mentirosa - replicou o pretendente. - Todos dizem que teu nome é Cata; ou Cata, a Fúria. Seja co­mo for, és a mais linda Cata do mundo. Tenho ouvido os maiores elogios à doçura de teu temperamento, e vim pedir-te em casamento.

             Foi um encontro bem estranho, para dois noivos: enquanto com freqüentes acessos de raiva ela reve­lava seu tempestuoso temperamento, ele não se can­sava de elogiar-lhe a meiguice e a boa educação. Ao ouvir por fim os passos de Batista, - disse Petrú­quio à moça:

            - Vamos deixar de conversa, Catarina. Teu pai es­tá de acordo: queiras ou não, serás minha mulher.

            E voltando-se para Batista declarou-lhe que o en­contro fora muito agradável, e Catarina prometera casar-se com ele no domingo seguinte. Aos gritos a moça protestou, afirmando que era tudo mentira: te­ria mais gosto em ver o pretendente pendurado na forca, no domingo. E em termos violentos censurou o pai, por desejar casá-Ia com um tipo vulgar e gros­seiro como aquele.

             Petrúquio, por sua vez, aconselhou o velho a não fazer caso das palavras da filha: - Tudo fingimen­to - disse ele -, ela até se mostrou muito terna e enamorada durante sua ausência.

            Em seguida despediu-se da moça com estas palavras:

            - Cata, irei a Veneza comprar-te um enxoval maravilhoso e jóias lindas. - E voltando-se para o velho, autorizou confiante: - Sr. Batista, pode pre­parar a festa de casamento.

            No domingo seguinte, os convidados esperaram um tempo enorme pela chegada do noivo. Catarina chorou de humilhação, acreditando tratar-se duma brincadeira de péssimo gosto. Petrúquio apareceu afinal, mas sem trazer as maravilhas que havia pro­metido. Além do mais, vestia-se da maneira mais extravagante, como se quisesse transformar a ceri­mônia do casamento numa palhaçada. Até os cava­los estavam arreados de modo ridículo.

            Não foi possível convencê-lo a trocar de roupa: declarou que Catarina casaria com ele e não com a roupa.

            Encabulados, dirigiram-se todos para a igreja. Quando o padre lhe perguntou se aceitava Cata­rina por esposa, respondeu o sim com um berro tão violento e inesperado que o coitado do sacerdote, com o susto, deixou cair o livro; e, quando o sacris­tão se inclinava para apanhá-lo, o noivo passou-lhe uma espetacular rasteira, criando a maior balbúrdia.

            Enquanto durou a cerimônia, Petrúquio resmun­gou e praguejou tanto que a valente Catarina come­çou a tremer de medo. Terminado o casamento, ali mesmo, diante do altar, ele pediu vinho e fez um brinde maluco aos presentes, atirando o conteúdo da taça no rosto do sacristão. E, como única explicação de seu gesto, disse simplesmente que a barba do ho­mem estava muito seca e precisava ser regada.

            Todas essas loucuras obedeciam ao plano inicial: amansar a furiosa Catarina.

            Batista preparara uma suntuosa festa, mas Petrú­qui o, na volta da igreja, agarrou Catarina brusca­mente, anunciando que iria levá-Ia imediatamente para sua casa. Os protestos do sogro e os uivos da noiva de nada valeram.

            Petrúquio fez a mulher montar sobre um cavalo manco e esquelético especialmente escolhido para a ocasião e, cavalgando ele próprio um animal seme­lhante, seguiram os dois pelos caminhos mais pe­dregosos e lamacentos. Quando o cavalo de Catari­na tropeçava, o rapaz descompunha aos berros a miserável cavalgadura, que mal se agüentava em pé. Parecia o mais violento dos homens.

            Durante toda a viagem a noiva só ouviu insultos e reclamações, mas, quando chegaram em casa, Petrú­quio desmanchou-se em gentilezas, embora intima­mente decidido a não deixar Catarina comer nem dormir naquela noite.

            Quando o jantar foi servido, ele começou a achar defeito em todos os pratos, atirando as iguarias ao chão. Assim procedia - explicava ele, fingindo ino­cência - por amor a Catarina, pois só desejava para ela o que houvesse de melhor.

            Quando Catarina chegou ao quarto, exausta e es­fomeada, a cena r~petiu-se: continuando a pôr de­feito em tudo, Petrúquio lançou os travesseiros e as cobertas por todos os lados.

            A pobre noiva teve de passar a noite numa cadei­ra, mas não pôde dormir: mal fechava os olhos, era acordada pelos gritos do marido insultando os cria­dos por não saberem preparar o leito nupcial.

            Petrúquio procedeu da mesma maneira no dia seguinte, embora se mostrasse muito carinhoso com a esposa. Continuando a achar a comida intragável, atirou o almoço ao chão. A fome de Catarina era tanta que, mal surgiu uma oportunidade, ela es­queceu o orgulho, e suplicou aos criados que lhe dessem às escondidas algum alimento. Obedientes às instruções recebidas, desculparam-se os criados alegando não terem coragem de dar-lhe qualquer alimento que não fosse antes examinado pelo amo. Catarina enfureceu-se:

            - O quê! Então esse homem se casou comigo pa­ra matar-me de fome! Até os mendigos que batem à porta de meu pai recebem comida. E eu, que nunca pedi nada a ninguém, vou acabar morrendo de fome e de cansaço! Não posso comer insultos! E esse mise­rável ainda finge que me ama.

            Petrúquio entrou nesse instante, trazendo-lhe um pouquinho de comida.

            - Como estás passando, querida Cata? Aqui está o almocinho que eu mesmo preparei para o meu amor. Como, não agradeces? Não mereço um "obri­gado"? Ora, perdi meu tempo!

            E mandou que o criado levasse o prato. Vencida pela fome mais forte que o ódio, Catarina suplicou-lhe:

             - Deixe o prato aqui, por favor.

            Petrúquio ainda não estava satisfeito:

            - Aqui, nesta casa, temos o hábito de agradecer gentilezas.

            Mordendo os lábios de despeito e humilhação, a faminta Catarina murmurou um tímido "muito obrigada".

            - Come à vontade, meu amor, não tenhas pressa.

            Iremos depois à casa de teu pai, minha doçura, carre­gados de mantos de seda e outros lindos adornos.

            Para fingir melhor que pretendia mesmo dar pre­sentes à mulher, mandou chamar uma costureira e uma chapeleira, às quais havia encomendado alguns serviços. E, antes que Catarina tivesse sequer chega­do à metade da minguada refeição, Petrúquio devol­veu o almoço ao criado.

            A chapeleira mostrou o primeiro chapéu enco­mendado. Petrúquio examinou-o e observou que era o chapéu mais feio que tinha visto em sua vida.

            - Quero então este - falou Catarina, apontando outro. - É o que está na moda para senhoras.

            - Ah, este só quando ficares muito boazinha, an­tes não -replicou-lhe o marido.

            A comida, embora pouca, dera novo ânimo à fú­ria de Catarina:

            - Fique o senhor sabendo que tenho direito de fa­lar e vou falar: não sou mais nenhuma criança! Já disse o que pensava a pessoas muito mais importantes         ...

                                      Tape os ouvidos, se não quiser ouvir, porque agora ...           .

            Mas Petrúquio, que não pretendia ouvir os desa­foros da mulher, respondeu amavelmente:

            - Tens toda razão, meu bem. Este chapéu é um pavor. Ainda gosto mais de ti pelo teu bom gosto.

            - Se gostas ou não gostas, pouco me importa: gosto do chapéu e vou ficar com ele ... ou não ficarei com nenhum outro.

            - Ah, agora queres ver um vestido? - continuou gentilmente Petrúquio, fingindo não ter entendido as palavras da esposa.

            A costureira mostrou a Catarina um lindo vestido, feito especialmente para ela.

            - Nossa Senhora! - exclamou o marido. - Que monstruosidade! Isso nem é um vestido! Parece mais um canhão enfeitado!

            A costureira desculpou-se:

            - O senhor ordenou que eu o fizesse de acordo com a moda.

            Catarina chegou a dizer que nunca vira um vestido tão bonito. Mas, com gestos e palavras indignados, Pe­trúquio expulsou a costureira e a chapeleira, murmu­rando a um criado, às escondidas, que pagasse às duas mulheres e lhes pedisse desculpas pela indelicadeza.

            - Vamos, Catarina - disse depois. - Somos for­çados a ir à casa de teu pai com as nossas velhas roupas.

            Mandou arrear os cavalos, afirmando que chega­riam à casa de Batista para o almoço, pois (acrescen­tou) eram ainda sete horas.

            O relógio marcava duas horas, e Catarina teve a coragem de dizer-lhe a verdade:

            - Acho que são duas horas; só chegaremos à ca­sa de papai depois do jantar.

            A intenção de Petrúquio era fazê-Ia concordar com tudo que ele dissesse, mesmo os absurdos. E, como se dele dependesse o movimento do próprio Sol, declarou:

            - As horas são as que eu quiser. Aliás, não irei mais hoje. E, quando for, será na hora que eu disser que é.

            Assim, por mais um dia Catarina viu-se forçada a praticar seus exercícios de obediência total. Só depois que atingiu um grau, julgado tolerável, de submissão, puseram-se ambos a caminho da casa de Batista.

            Em plena viagem, Catarina teve a imprudência de afirmar que era o Sol e não a Lua (como ele dizia) que estava brilhando ao meio-dia. Retrucou-lhe o marido: - Juro pelo filho de minha mãe que é a Lua ... Ou qualquer outra estrela, desde que eu assim o deseje ... Será sempre o que eu disser.

            E fez menção de voltar. Mas Catarina, que de Fúria passara a ser a "Obediente", pediu-lhe:

            - Vamos prosseguir, por favor. Tanto faz que seja o Sol, a Lua, contanto que seja o que disseres.             - Repito que é a Lua.

            - Eu sei que é a Lua.

            - Pois estás mentindo: é o Sol.

            - Então é o Sol- confirmou Catarina. - Para mim, será sempre o que quiseres.

            Diante disso, ele continuou a viagem. Um pouco adiante, pretendendo verificar se a boa vontade de Ca­tarina ainda permanecia, cumprimentou um velho que encontraram na estrada como se fosse uma jovem:

            - Bom-dia, linda mocinha!

            E perguntou à esposa se já vira moça mais bonita, de pele mais clara e faces tão rosadas.

            - Fala também com a linda jovem, Cata.

            A submissa Catarina prontamente aquiesceu e dirigindo-se ao velho, perguntou:

            - Onde moras, linda menina? Que felicidade para os pais terem como filha uma jovem tão encantadora! - Que é isso, Cata? Estás louca? - interrogou Petrúquio. - Chamar de jovem encantadora a um ancião todo enrugado e trôpego!

            - Perdoe-me, venerável senhor - corrigiu-se Catarina. - O sol ofuscou-me a vista.

            Respondeu o velho:

            - Gentil senhora, meu nome é Vicêncio, e vou visitar meu filho que mora em Pádua.

            Os três continuaram a viagem juntos, vindo o ca­sal a saber que o velho era pai de Lucêncio, noivo de Branca, filha mais moça de Batista, à qual Petrúquio fez muitos elogios.

            Encontraram a casa de Batista repleta de convi­dados que comemoravam o casamento de Branca e Lucêncio.

            O sogro e pai deu-lhes as boas-vindas. Durante a festa, Lucêncio, marido de Branca, e Hortênsio, ou­tro recém-casado, começaram a fazer brincadeiras sobre o temperamento irritado da mulher de Petrú­quio, ao mesmo tempo que se mostravam muito contentes com a boa índole de suas escolhidas. Pe­trúquio só levou os gracejos a sério quando o sogro, rindo-se, disse-lhes:

            - Sinto muito, caro Petrúquio, mas acho que le­vaste a mais rebelde de todas.

            - Pois eu digo que não - respondeu Petrúquio - e, para mostrar-lhes que não estou mentindo, proponho o seguinte: cada um de nós mandará cha­mar sua mulher; aquele cuja esposa vier mais de­pressa ganhará uma aposta.

            Os dois maridos concordaram depressa, propon­do que apostassem vinte moedas de ouro. Petrúquio respondeu jovialmente que apostaria essa importân­cia no seu falcão ou no seu cão de caça: em Catarina apostaria vinte vezes mais. E assim a aposta foi eleva­da para cem moedas de ouro.

            Lucêncio foi o primeiro a mandar o criado cha­mar a mulher. A resposta foi rápida e lacônica:

            - A senhora mandou dizer-lhe, meu senhor, que está ocupada e não pode vir.

            - Como! - exclamou Petrúquio. - Então ela mandou dizer que está ocupada e não pode vir? Isso é resposta de esposa atenciosa?

            Todos riram e disseram que seria de espantar caso Catarina não mandasse uma resposta muito pior.

            A mulher de Hortênsio, por sua vez, mandou dizer pelo criado que não estava para brincadeiras e que não iria; e ordenava que o marido fosse procurá-Ia.

            - Cada vez pior! - exclamou Petrúquio, e voltando­se para o criado, mandou-o chamar Catarina.

            Não se passou muito tempo e, assombrado, Batista exclamava:

            - Santa Mãe de Deus! Aí vem Catarina! Aproximando-se do marido, ela perguntou sua­vemente:

            - Que desejas?

            - Onde está tua irmã e a esposa de Hortênsio? - indagou ele.

            - Estão sentadas ao pé da lareira, conversando.

            - Vai buscá-Ias.

            E Catarina se retirou, sem discutir a ordem.

            - Mas isso é um milagre! - exclamou Lucêncio.

            - Não há dúvida - concordou Hortênsio. - O que é que você espera desse milagre?

            - Espero a paz - volveu Petrúquio. Paz, amor, compreensão, tudo enfim que há de belo e duradou­ro no casamento.

            Satisfeito de ver a filha tão mudada, disse Batista: - Muito bem, Petrúquio. Ganhaste a aposta e mais vinte mil coroas que de bom grado lhe acrescen­tarei ao dote, como se fosse casar outra filha; Catari­na está tão mudada que parece outra pessoa.

            Petrúquio respondeu:

            - Obrigado, mas não aceito. E agora vou-lhes dar novas provas de boa índole de Catarina. Aí vem mi­nha mulher, trazendo as outras recalcitrantes espo­sas. Catarina, esse chapéu não te fica bem; gostaria que o jogasses fora.

            Catarina obedeceu-lhe imediatamente.

            - Santo Deus! - exclamou a mulher de Hortên­sio. - Eu preferia morrer a me sujeitar a semelhante humilhação!

            - Que submissão idiota! - disse Branca.

            - Eu gostaria que tua submissão fosse também idiota - replicou Lucêncio. - Já me custaste cem moedas de ouro.

            - Catarina - falou Petrúquio -, acho que deves explicar a'essas senhoras em que consiste a submissão da esposa.

            Para espanto de todos, a Fúria regenerada discor­reu com muita eloqüência sobre o dever de obediên­cia das esposas.

            E tornou-se de novo objeto dos comentários de toda a cidade, não mais como a Fúria indomável, mas como a mais dócil e obediente de todas as mulheres.

Professora Sandra Ferraz

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